Às Profundezas


Minha mão segurava firmemente as barras de ferro que me separavam do meu reflexo há uns cinco metros abaixo. Era difícil descobrir se o rosto nas águas tremeluzentes realmente pertencia a mim, já que meus olhos banhados de lágrimas impediam minha visão. Ou talvez fosse o fato de que minha cabeça não estava realmente organizada de tal maneira para reconhecer rostos, mesmo que fosse o meu.

A verdade é que tudo estava terrivelmente de cabeça para baixo, tanto que eu não sabia mais se estava acima da água ou abaixo dela. Um momento ele estava comigo, ao meu lado, sorrindo, respirando, com um coração jovem batendo em seu peito. No outro momento, tudo acabara, ele estava sem vida, com os olhos estáticos que nunca mais poderiam ver meu rosto. Ele estava entregue à escuridão.

O que restava de mim estava despedaçado, tentando entender o que saíra de errado. Não estava falando do término de um romance comum, daqueles que um “acabou” significava que amanhã você pode reencontrar a pessoa novamente. Estou falando de um “Adeus para todo o sempre”. Você nunca mais verá a pessoa, a não ser nas fotos corriqueiras que tirou, nos bilhetes guardados na gaveta ou simplesmente naquele casaco emprestado, com o cheiro da pessoa.

Ele estava morto. Isso era tão difícil de assimilar. Era como se fosse a maior mentira que o mundo havia me pregado, se me dissessem que nosso romance tinha terminado por causa de uma briga, eu poderia entender. Mas aquilo eu nunca compreenderia, mesmo que eu tentasse. Não adiantava apertar aquela barra de ferro com força, como se pudessem tornar os fatos mais reais, nada estava certo.

Apoiei-me mais para poder ver meu reflexo, agora eu podia reconhecer minhas feições e meus cabelos grudados ao meu rosto por causa das lágrimas. Eu só não contava com a visão de outra pessoa ao meu lado. Virei para trás, tentando localizar quem estivera perto de mim, mas não havia ninguém, a rua estava escura e deserta como sempre estivera. Só havia pessoas no final da esquina, em um bar vagabundo, com uma música irritante.

Olhei novamente meu reflexo, ou eu estava realmente louca ou outra coisa muito parecido com uma pessoa estava ao meu lado. Então meu coração disparou quando percebi de quem se tratava. Como eu não reconheci antes? Eram os mesmo olhos que sempre me fitaram, era o mesmo sorriso que eu via todas as manhãs, era o mesmo cabelo insistentemente despenteado, era a mesma pessoa por quem eu chorara o dia inteiro.

A realidade parecia mais uma vez distante, ele estava aqui, não morrera! Eu era capaz de senti-lo perto de mim, até sua respiração quente chegava até a minha nuca, me enchendo de vontade de me voltar para trás. Mas eu tinha medo de perder a visão dele, de olhar novamente para trás e não ver nada, de voltar a olhar meu reflexo e não vê-lo ao meu lado. Mesmo assim, ele estava tão distante e quanto mais lágrimas inundavam meus olhos, mais eu sentia que podia perdê-lo novamente.

Estiquei meu braço, tentando tocar a água, mas ela estava há metros de distância, nunca poderia chegar perto dele. Tentei novamente e antes que pudesse impedir que a lei da física fizesse seu papel, despenquei até a água, às profundezas da mesma forma que Narciso morreu por sua imagem, eu morri pela dele.

Dasty e seus contos estranhos tsc tsc...

1 Comentários:

  1. ohmy, Dasty *-* que legaaaal o conto! e essa foto... adorei! IOSAUHDHI sempre tiro inspiração de fotos ><
    o conto tá realmente MUITO legal, adorei *-*

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