Apenas Atire


Era tarde demais. Eu estava perdida para todo sempre e nem sabia como poderia me tirar dessa. O tempo todo, eu pensei que podia salvar os outros, podia ajudá-los e agora nem eles, nem eu posso me ajudar. Claro que foi minha culpa, fui muito descuidada, quando vi que o pequeno Victor iria morrer naquelas mãos putrefatas, tive que fazer algo.
– Você não vai morrer, não é, Ellie? – perguntou Victor, com seus sete anos de vida e olhos azuis do tamanho de bolas de gude, cheios de lágrimas. Ele estava assustado como todo o resto do grupo, todos encurralados dentro de um galpão abandonado, contando apenas com a sorte e com nossos revólveres.
– Não sei – eu disse realmente sabendo que a melhor resposta era que sim. O sangramento no meu braço não parava, eu havia perdido um pedaço dele quando aquele maldito zumbi precipitou seus dentes podres para cima de Victor. Naquele momento era o garoto ou eu, e por imprudência ou compaixão, decidi entregar a mim.
Tudo bem, eu realmente pensava que conseguiria salvá-lo sem que fosse mordida. Não esperava por essa. Agora estava aí o resultado, em torno de algumas horas eu viraria um morto-vivo repugnante, com seu corpo apodrecendo, mas seus desejos por carne humana durando para sempre. Eu ainda tinha esperança de que nada acontecesse comigo, que apenas fora uma mordidinha e que nenhum vírus maluco iria se infiltrar no meu corpo.
Mas era demais me enganar, eu já era capaz de sentir mudanças. Meus músculos estavam tendo espasmos e até respirar se tornava difícil, além de várias vezes meus olhos perderem o foco. O pior de tudo é ter um grupo de dez pessoas me olhando, alguns com medo e outros com a maior pena do mundo. Alguns ainda discutiam se era melhor dar um tiro em mim agora, ou esperar.
– Não vamos matá-la agora! – David gritava, segurando seu revólver fortemente, como se fosse capaz de atirar neles, mas não permitira que me matassem – Temos que esperar, ela pode melhorar.
– Você está querendo se enganar, ela é um perigo para nós igual aos que estão lá fora, pronto para se alimentarem de nós! – Neil retrucava, ele era o mais velho do grupo e se achava inteligente o suficiente para comandar todos, se não fosse sua falta de paciência e sua mania de agir antes de pensar, acho que não estaríamos encurralados como estávamos. Claro que não me atrevi a falar isso, a situação já estava ruim demais.
– Vocês não acham que eu poderia decidir o que fazer com minha vida? – eu exclamei com raiva – Não quero que estourem meu cérebro ainda, até eu não ter plena certeza de que vou virar um deles.
Todos ficaram em silêncio enquanto eu tentava respirar. Até falar se tornara difícil, era como se cada palavra me roubasse um suspiro. David se aproximou de mim, a boca dele abriu várias vezes, tentando buscar palavras de conforto que nunca achou. Não havia nada que consolasse uma pessoa mordida por um zumbi, a única certeza que você tem é da morte. Eu seria mais uma daquelas pessoas, iguais a dos filmes, que não chegava ao final e só servia para morrer e salvar os protagonistas. Maldita a hora que decidi ser uma coadjuvante.
Uma coisa eu tenho certeza: quando você está para morrer, são as piores horas de todas. Já devia ter se passado umas cinco horas desde que fui infectada, eu já havia virado puro suor frio e minha cabeça parecia prestes a explodir. O ar passava rasgando pela minha garganta e várias vezes pensei em parar de respirar para que a dor parasse.
– Ellie, você é forte de verdade para aguentar tudo isso – David disse, finalmente, encontrando algumas palavras – Mas não pode permitir que isso continue.
Eu abri meus olhos, percebi pelos olhos dele que eu não estava bem. Tudo estava desfocado, não conseguia enxergar quase nada, além dos olhos deles. Eu já estava perdendo a visão, em contrapartida, eu podia sentir muitos cheiros, desde suor deles até o cheiro fétido de sangue. O meu sangue. Minha barriga estava vazia o suficiente para pedir por algum alimento, e não estava falando de hambúrgueres, eu podia sentir o cheiro da carne tenra deles, carne viva.
– Apenas atire – eu consegui dizer com minha voz cava – Não hesite.
David se afastou, eu ainda era capaz de notar lágrimas nos seus olhos antes que minha visão torna-se totalmente desfocada. Eu já estava perdendo os sentidos, quando a última coisa que eu ouvi, não foi o tiro que ecoou pelo galpão, fazendo todos gritarem, foi o “Perdoe-me” dele. Olá Mundo dos Mortos não-Vivos.

*Isso que dá assistir The Walking Dead demais :B

5 Comentários:

  1. hahaha Zumbies , cara seu pequeno texto foi mais emocionante que toda a serie UAShUASHuah
    eu gosteei ;D
    já viu o season finale?

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  2. Gente você escreve bem *o*
    e confesso que na maioria das histórias que leio gosto que o personagem principal morra *sou sanguinária?*rs. Eu preciso começar assistir The Walking Dead, ouço tanto falar nele. Estou seguindo :*

    http://kings.and.queens.zip.net

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  3. Nossa vc escreve muito bem!Parabéns!!!
    Eu confesso que prefiro mais vampiros que zumbi.Mas gostei muito do seu texto!!

    bjus

    Ane - the littlestorm

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  4. Meu Deus! Você conseguiu me arrepiar aqui!

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  5. Haha, eu adoro The Walking Dead, sou bem viciada na série também.
    O seu conto ficou MUITO bom! Você escreve muito bem :)

    xx carol

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