Garotas que leem

Eu estava vagueando pelo Tumblr quando de repente me deparei com um dos textos mais lindos que já vi! Como o texto estava em inglês, pensei em traduzi-lo, mas acabei achando-o em português. O texto se chama Namore uma Garota que Lê (de Rosemary Urquico), mas antes de postá-lo aqui, queria explicar que esse texto na verdade é uma resposta a outro chamado Namore uma Garota que não lê (de Charles Warnke), que eu precisei traduzir já que não achei a tradução (por isso vai estar meia-boca). Leia os dois e veja que maravilha!
Namore uma Garota que não lê

Saia com uma garota que não lê. Encontre-a cansada no meio de um miserável bar do Centro-Oeste. Encontre-a no meio do fumo, do suor de bêbados e das luzes multicoloridas de uma discoteca de luxo. Onde quer que a encontre, descubra-a sorrindo e assegure-se de que esse sorriso permaneça enquanto as pessoas que estão falando com ela, desviem o olhar. Cative-a com trivialidades pouco sentimentais, use as típicas frases de conquista e ria interiormente. Leve-a para fora quando os bares e as discotecas tenham dado por concluída a noitada; ignore o peso da fadiga. Beije-a embaixo da chuva e deixe que a tênue luz de um poste da rua os ilumine, assim como você havia visto que acontece nos filmes. Faça um comentário sobre o pouco significativo que isso teve. Leve-a seu apartamento e faça logo amor. Faça sexo.
Deixe que o ansioso contrato que você inconsciente havia escrito evolua de uma forma lenta e desconfortável em relacionamento. Encontre interesses e gostos em comum, como sushi e música folk. Construa um muro impenetrável ao redor deles. Faça de um espaço comum um espaço sagrado e regresse a ele cada vez que o ar se torne pesado ou as noites longas. Fale-a de coisas sem importância. Pense pouco. Deixe o mês passar despercebido. Peça-a para se mudar e vir morar com você. Deixe-a decorar. Brigue por coisas insignificantes, por exemplo, sobre a cortina do banheiro que deve permanecer fechada para que não fique cheia daquele maldito mofo. Deixe que passe um ano sem que perceba. Comece a perceber.
Conclua que provavelmente você deveria se casar porque você vai ter desperdiçado muito tempo da sua vida. Convide-a para jantar no quadragésimo quinto andar de um restaurante muito além dos seus meios. Tenha certeza de que a vista da cidade seja bonita. Timidamente, peça para o garçom trazer uma taça de champanhe com um modesto anel nele. Quando ela perceber, proponha a ela com toda a sinceridade e entusiasmo que você tem. Não se preocupe se você sentir que seu coração está a ponto de atravessar seu peito e se não sente nada, tão pouco dê importância. Se houver aplausos, deixe que terminem. Se ela chorar, sorria como se nunca estivesse estado tão feliz, e se não conseguir sentir isso, sorria da mesma maneira.
Deixe os anos passarem sem que perceba. Consiga uma carreira, não um emprego. Compre uma casa. Tenha dois filhos bonitos. Tente criá-los bem. Falhe, frequentemente. Caia em uma entediante indiferença e logo em uma tristeza dessa mesma natureza. Tenha uma crise de meia-idade. Envelheça. Admire a sua falta de realização. Às vezes, sinta-se contente, mas principalmente vago e etéreo. Sinta-se durante as caminhadas como se você nunca pudesse retornar ou que o vento pode levá-lo consigo. Contraia uma doença terminal. Morra, mas só depois de ter se dado conta de que a garota que não lê jamais fez seu coração vibrar com uma paixão que tivera significado, que ninguém vai escrever a história de suas vidas, e que ela vai morrer também, arrependida que nada proveio da sua capacidade de amar.
Faça todas essas coisas, maldita seja, porque nada é pior do que uma garota que lê. Faça, eu digo, porque uma vida no purgatório é melhor do que uma vida no inferno. Faça, porque a garota que lê possui o vocabulário que pode descrever esse descontentamento de uma vida insatisfeita, um vocabulário que analisa a beleza inata do mundo e a converte em uma necessidade alcançável em vez de uma maravilha alienada. Uma garota que lê faz alarde de um vocabulário que pode identificar a capciosa e desalmada retórica de quem não pode amá-la e a inarticulada causada pelo desespero de quem a ama muito. Um vocabulário, maldito seja, que faz de mim um enganador vazio, um truque barato.
Faça, porque a garota que lê, entende sintaxe. A literatura tem a ensinado que os momentos de ternura chega em intervalos esporádicos, mas reconhecíveis. Uma garota que lê sabe que a vida não é planar, ela sabe e exige, que o fluxo da vida venha em uma corrente de decepção. Uma garota que leu sobre as regras de sintaxe, conhece as pausas irregulares – a vacilação e a respiração – que acompanha a mentira. Sabe qual é a diferença entre um episódio de raiva isolado e os hábitos de alguém que se agarra com força a alguém cujo amargo cinismo continuará, sem razão e sem propósito, depois que ela tenha empacotado suas coisas e pronunciado um inseguro adeus. E ela decidiu que eu sou uma elipse e não uma etapa, e, por isso, segue seu caminho. A sintaxe a permitiu que conhecesse o ritmo e a cadência de uma vida bem vivida.
Namore uma garota que não lê, porque uma garota que lê sabe a importância de uma trama. Ela pode traçar as demarcações de um prólogo e os cumes afiados de um clímax. Ela sente em sua pele. Uma garota que lê será paciente caso haja pausas e tentará acelerar o desfecho. Mas de todas as coisas, a garota que lê conhece o inevitável significado de um final. E sente-se cômoda com ele. Ela tem se despedido de milhares de heróis com apenas uma pontada de tristeza.
Não namore uma garota que lê porque garotas que leem são contadoras de história. Você com Joyce, você com o Nabokov, você com Woolf. Você na biblioteca, na plataforma de metrô, você em um café de esquina, você na janela do quarto. Você, que tem feito minha vida tão difícil. A garota que lê tornou-se uma espectadora de sua vida e cheia de significado. Ela insiste que suas narrativas são ricas, ela apóia seu elenco colorido e sua tipologia. Você, a garota que lê, faz-me querer ser tudo que eu não sou. Mas eu sou fraco e vou deixá-la, porque você tem sonhado, propriamente, com alguém que é melhor do que eu. Você não vai aceitar a vida que eu disse no início deste texto. Você vai aceitar nada menos que paixão, e perfeição, e uma vida digna de ser narrada. Por isso, vou deixá-la, garota que lê. Pegue o próximo trem que a levará para o Sul e leve consigo um Hemingway. Eu te odeio. Eu realmente, realmente, realmente te odeio.

Namore uma Garota que lê

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.
Encontre uma garota que lê. Você saberá que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.
Ela é a garota que lê enquanto espera em um café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criado pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.
Compre para ela outra xícara de café.
Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gostaria ou gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexto, Pound, Cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade, mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.
É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.
Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.
Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.
Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.
Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.
Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.
Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.
Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

3 Comentários:

  1. Comecei detestando o primeiro texto, me pareceu tão frio e sem graça (julgamento apressado!), depois que li tudo e compreendi o sentido, gostei muito!
    O segundo texto é lindo-lindo!
    ~Eu cheiro as páginas do livro!!!~
    ~E falo dos personagens como se eles fossem reis!~
    Muito fofo! Obrigada por compartilhar estes belos textos! Amanhã, se você não se incomodar, colocarei o link deste post no meu blog! Coisas legais assim precisam ser compartilhadas!

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  2. O primeiro texto parece ser de alguém que já desperdiçou a vida toda. É deprimente e amargo.

    Eu amei o segundo texto! Eu também cheiro as páginas dos livros e falo dos personagens como se fossem reais. xD Que gostoso é ficar lendo!

    Eu adoro ganhar livros de presente. xD

    Adorei o post!

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  3. Que coisa mais linda, tenho que confessar que esse texto me chamou a atenção há alguns dias e eu disse a mim mesma que teria que parar para o ler, e cá estou eu. Ah, e qual a garota que ama ler que passa por um Sebo ou biblioteca e não prega os olhos lá dentro e tenta capturar em alguns passos tudo o que viu, ou entra e fica lá por horas, e ainda faz amizade com os vendedores? Que não cheira as páginas de livro, e que leva sempre um na bolsa, porque ora bolas, se um tempinho, por mínimo que seja se torne livre, quem poderá acompanhá-la senão os personagens de tal história que a mesma carrega na bolsa?
    Eu sou completamente assim e já levei várias broncas por ler enquanto comia, por ler enquanto ficava no computador, por ler dentro do ônibus, por ler no ponto de ônibus, por não dar atenção necessária às pessoas que estão conversando comigo enquanto eu viajo nas palavras que estão na frente dos meus olhos em forma de livro. Ah, poucos compreendem mas toda hora é hora.

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