Sobre acasos e improbabilidades

        Você sabe que seu dia vai ser estranho quando o começa tentando colocar um monte daquelas balinhas Nerds do Willy Wonka na boca, esquece que está com batom vermelho e borra tudo no ônibus. Foi esse pequeno incidente que me fez ter a sensação de que aquele dia prometia situações esquisitas. Talvez não tantas como da quinta passada quando peguei o ônibus errado e fui parar onde Judas perdeu as botas. Mesmo assim, era algo próximo.
        Dessa vez eu peguei o ônibus certo. E também parei na estação de metrô certa. Tudo ok. Agora só faltava o último ônibus para chegar à faculdade. Porém, lá em plena Praça da República – palco de muitas atrações das mais esquisitas e legais –, percebi um movimento suspeito. Havia muitos policiais, luzes vermelhas e um trio elétrico cantando aquela música “Ai, ai, ai, ai, ai! Assim você mata o papai!”. Logo associei essa música com algum político e suas paródias para conseguir votos. Mas não era nada disso. Era uma passeata com o time de vôlei feminino que ganhou ouro no Brasil.
        Mal o trio elétrico passou na maior animação, logo surgiu um caminhão de bombeiro levando as medalhistas. E, sério, por mais estranho que fosse, aquilo realmente era muito emocionante. Fiquei fazendo tchauzinho igual a uma boba para elas junto com um bocado de outras pessoas. Até esqueci que tinha que pegar o ônibus para chegar a tempo na faculdade. Em poucos segundos elas viraram a esquina e a vida continuou o seu curso, como se nada fora do comum tivesse acontecido.

        Cheguei à faculdade e tive as aulas mais legais até agora: Linguagem Hipermidiática, Linguagem Musical e Linguagem Cinematográfica. Na primeira aula fizemos uma dinâmica super legal com post-its. Na segunda aula aprendemos sobre orquestra e descobri que o Júnior, da Sandy e Júnior, não sabe cantar. Uma peninha. E na última aula finalmente eu descobri o que é Rosebud – isso aparece no filme Os Sem Floresta quando o gambá finge que está morrendo. Parecem coisas banais, mas fazem todo sentido do mundo quando você entende o contexto.
        Na hora de voltar, quando estava no ônibus agarrado ao primeiro livro d’O Guia dos Mochileiros da Galáxia achando a história sensacional, algo chamou minha atenção. Foi quase como se uma força sobrenatural tivesse me cutucado com uma agulha. Levantei a cabeça e olhei para frente quando me deparei com uma garota segurando uma revista. Até aí nada de anormal. De repente, percebi que havia uma imagem na revista que só podia ser vista porque ela dobrou-a de uma forma estranha. Até aí tudo bem, revistas têm imagens. Porém, era o retrato do Álvares de Azevedo.

        Vamos pensar comigo: qual a improbabilidade de uma garota estar lendo algo em relação ao Álvares de Azevedo no mesmo ônibus que eu? E que eu ainda fui capaz de perceber? Segundo o livro O Guia dos Mochileiros da Galáxia, a improbabilidade é de três elevado a 98.344 contra um.
        É claro que minha vontade era de falar com ela e perguntar onde diabos ela conseguira aquilo e sobre o que falava, mas me contentei em ficar fitando a revista e tentar captar alguma informação. Obviamente falhei porque ela desceu no próximo ponto.
        E você quer saber mais sobre improbabilidade? Lá estava eu lendo novamente o livro quando alguém sentou do meu lado. Normalmente eu não olho para as pessoas que me sentam ao meu lado, evito o máximo de contato porque não quero interação, mas dessa vez olhei. E lá estava o Mudo que eu conheci no começo do ano.
        Essa é uma história engraçada que já devia ter contado, mas me esqueci. O Mudo é um homem que deve ter uma idade entre 40 e 60 anos que pega a mesma rota que eu para chegar a sua casa. Porém, como há vários ônibus, só vi-o duas vezes. A primeira foi a coisa mais estranha de todas, porque ele é mudo. Mas, para um mudo, ele fala demais, até mais que eu, só que em gestos. E não sei por que diabos ele pegou a mania de querer “conversar” justo comigo. Não estou sendo indelicada, nem nada, tenho meus motivos e vou expô-los.
        Eu sou lerda. Meu poder de assimilação é lento. Na escola eu era uma das únicas pessoas que não conseguia ler lábios. Falar comigo em gestos? Nunca vou entender. Então, quando o Mudo tentava falar comigo, eu apenas ficava concordando e sorrindo porque eu não estava entendendo nada. Tudo bem, entendi algumas coisas, mas a maioria sempre vai ser um mistério. Então, imagine um Mudo falando com você por uns vinte minutos e você não entender nada e só ficar acenando? As consequências são cãibras no pescoço e um cérebro gratinado de tanto pensar. E acho que ele gostou de mim porque eu “ouvi-o”.

        Só que dessa vez eu não estava tão apta a conversar. Na verdade, pergunto-me quando estou. Então, apenas falei oi e me limitei a ler o livro. Porém, percebi que ele ficava me olhando e tentando achar uma brecha para conversarmos. Fiquei até com peninha, mas como já estava quase chegando a hora de descer, preferi ficar na minha.
        A improbabilidade de encontrar o Mudo no ônibus não é tão grande assim, já que essa é a terceira vez. Quanto a improbabilidade de encontrar as garotas do vôlei feminino em uma passeata é bem maior. E essa rede de improbabilidade foi tecida justamente quando comi as balinhas Nerds. Vou tomar cuidado da próxima vez.

Obs: Esse post ganhou o prêmio de sem-noção. Acalmem-se que virão outros.

11 Comentários:

  1. Você viu as as meninas do time de vôlei, que legal pfvrrrrrrrrrr *-* Adoro vôlei, foi uma das poucas coisas que acompanhei nessa Olimpíada.
    Eu li O Guia dos Mochileiros da Galáxia semana passada e amei, estou com dó de devolver porque não é meu </3 Simplesmente necessito ler O Restaurante no Fim do Universo e todo o resto da "trilogia de cinco".
    Eu queria aprender libras, mas vi umas aulas e é bem complicado :(

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  2. @_@ Cara, e eu achando que só eu brisava nas coisas. É bom saber disso. HAUSHUAS

    Eu também não sou lá muito fã de conversar dentro do ônibus, principalmente quando estou com meus fones e detesto quando insistem em puxar assunto. Sorrir dá dos nas bochechas, sabiam pessoas? DÓI.

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  3. Eu já pensei muito em probabilidade e improbabilidades. Inclusive já escrevi algo sobre isso.D: Mas eu acredito que quanto mais a gente procura algo de provável, mais coisas improváveis acontecem. Sei que é confuso isso, mas é algo assim. Se você sente que seu dia será estranho, ele provavelmente será. O problema é: Ele será nas horas mais inusitadas, elevando a improbabilidade à níveis absurdos. E já vou te adiantando uma coisa que acho que nunca te contei. Te conheci numa dessas teias de improbabilidades.

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  4. Você conta bem uma história! Me manteve atenta no post, faça mais posts do tipo. Adorei!
    Eu acho uma graça o quanto você ama Álvares de Azevedo!

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  5. eu adoro quando você conta essas coisas que acontecem kkkkk, super me divirto (:

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  6. Segundo meus conceitos e probabilidades, dizer "o que eu não daria/faria para ver uma passeata com as gurias da Seleção" é uma sentença para lá de exagerada, mas eu gostaria muitíssimo de dar um tchau para elas e alegrar seus dias... para elas verem que as pessoas realmente prezam o trabalho delas. Também daria um jeitinho mineiro de dizer a Jaque para não deixar Murilinho ficar para baixo, mas isso já é outra história.
    Considerando que a receita para ter um selo "sem-noção" é: batom vermelho, Nerds e Douglas Adams, acho que preciso de dinheiro disponível para ter uma dessas azedinhas nos lábios. A gente se pega pensando "poxa, isso foi estranho", "oh, taí uma coisa que não se vê todo dia", "....que raios...?", mas tudo forma um contexto final bastante interessante, não acha? Se não fossem as Nerds você não teria elaborado um texto tão agradável.
    Mas na verdade acho que o principal causador dessa rede foi o mestre Douglas habitando as entranhas de sua bolsa. Tudo passa a tomar um caminho no mínimo curioso depois que temos tanta improbabilidade e creme de leite em nossa companhia.
    Sem querer me intrometer, mas já me intrometendo: dê mais valor ao Mudo da próxima vez que se encontrarem no caminho de casa (mesmo que ele possa ser um possível fugitivo de Alcatraz). Não é sempre que se tem a oportunidade de “conversar” com alguém que não “fala”. E, bem, não sei mais o que estou dizendo. Oh, sim. A menina da revista. Vê? Douglas é tão mestre que manda pessoas do acaso para nos inspirar a criar universos e povoar paralelidades. Tudo é improvável e nada machuca.
    Tenha boa semana. (─‿‿─)

    P.S.: [a ave bica] Roendo as unhas que já não existem mais de ansiedade para os próximos.

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  7. Amo O Guia do Mochileiro das Galáxias, mas ainda não terminei de ler a série. O post ficou um máximo, estou ansiosa pelo próximo! É muito LOUCO quando acontece coisas assim comigo, às vezes eu começo a rir sozinha no ônibus, na rua, quando paro pra pensar... ai ai.

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  8. Olá.
    Seu blog é muito legal,parabéns.
    Quer divulgar no Portal Teia, é grátis rápido e não precisa cadastro.
    Se interessar é só dar uma passadinha lá.
    Até mais

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  9. Bom, adoro ler esses posts meio brisados q você faz as vezes, como alguém já disse aqui mesmo, é bom saber que não sou a unica que entra em profundas reflexões por coisas consideradas 'inuteis', ou 'bobas', ou qualquer definição que meus pais dariam. Bem, posso dizer que achei bem dentro do tema de probabilidadas a coincidencia de você ter dado tchauzinho para as garotas do vôlei (e bom, eu ler isso tipo hoje) quando há exatos dois dias tive uma experiência parecidissima. Não que eu as tenha visto, mas tive um contato relativamente proximo com elas. Há dois dias houve uma cerimônia aqui na minha cidade, que aproveitando a deixa do aniverśario da cidade, aproveitou a deixa para fazer uma homenagem - daquelas em que as pessoas recebem medalhas, placas, coisas e tal - aos cidadãos que contribuiram de alguma forma para o desenvolvimento, propaganda, coisas e tal. E minha família é amiga de um artista que eu admiro muito, que ia ser homenageado nessa cerimonia (o nome dele é Franco Masotto, pode procurar no google pra ter uma ideia da vida do cara :p) e enfim, acabei conhecendo a vida de mais outros cinco caras que eram de São Roque e tinham realizado coisas ilustres para a cidade e para o mundo tambem. E um deles era o doutor 'Julio de Sao Roque', simplesmente o melhor ortopedista reconhecido pela America Latina, e medico oficial da seleção XD Ele contou diversas historias dos bastidores da Olimpiada, de como as meninas eram, de como todos ansiavam o ouro, coisa e tal. Achei bem interessante quando vc narrou sua experiencia na praça da República, me veio na hora na cabeça todas as historias do Dr Julio e os acontecimentos de Londres :3 Até poderia contá-los aqui, mas acho q ficaria muito longo. E acho q você já deve estar de saco cheio toda vez que eu comento nas postagens segue sempre uma bíblia HAJFIGJSJFS Mas enfim, é que sou meio tagarela XP De qualquer forma eu adoro seu blog! ;)

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  10. Ri tanto lendo esse texto LoL. #dels. Nunca falei com mudos porque não os entendo mesmo. Mas,essa coisa de probabilidade me lembro do Efeito Borboleta (lembra do filme?).É uma coisa muito,muito,improvável de acontecer. Mas,só da gente tecer essas possibilidades não parece tão maluco (tem certo sentido). E eu aqui, pensando que essa sua leitura do Guia do Mochileiro está te influenciando.... vai ver é isso mesmo...
    @blogabs | Blog Abs | Fanpage

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  11. Eu costumava não saber ler lábios até que conheci a Rebeca, ano passado. Ela não tinha 100% da audição, por isso se comunicava lendo lábios e emitindo alguns sons. Foi conversando com ela sobre maquiagem uma boa parte do ano que eu aprendi a ler lábios e ter paciência pra entender o que as pessoas querem dizer às vezes. Esse comentário pode não ter muita coisa a ver com o seu post, mas ele me fez lembrar da Rebeca e da minha antiga incapacidade de ler lábios e interpretar gestos.

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