Santo do pau oco

Se você começar a prestar atenção nas pessoas, notará que elas possuem dons desde os mais peculiares até os mais normais. Você já deve ter possuído um amigo que desenha muito bem, canta igual a um coral de anjos ou que conhece um computador melhor do que o Bill Gates. Ainda há aqueles com dons mais bizarros como conseguir lamber o cotovelo, virar o dedo até encostar as costas da mão ou simplesmente saber imitar algum personagem de televisão. De todos os dons que tenho (não que sejam muitos), desde os mais normais até os mais bizarros, o que eu decidi falar hoje é o de “baixar o santo”.

Não, não tem nada a ver com incorporar ou o sentido religioso da coisa, é algo mais metafórico. Vou explicar de um modo mais fácil. Por isso, vamos voltar um pouco no tempo, quando eu deveria ter uns quatorze anos e era a negação máxima em Educação Física. Um belo dia, não sei por que diabos, alguém teve a bela ideia de me colocar como goleira em handball. Simples assim. Não lembro se a goleira havia faltado ou se ela decidira jogar na linha, só sei que me colocaram naquele maldito lugar.

E isso nem era o pior. Nós íamos jogar com as meninas mais velhas do 3ª ano. Não precisava ser vidente para saber que íamos perder de lavada, afinal todos sabiam minha falta de habilidade em Educação Física. Então, lá do céu, de um mundo alternativo ou do Olimpo, surgiu o Santo dos Goleiros. Ele olhou para baixo e viu uma pobre garotinha mirrada perto da trave já morrendo de medo das boladas que iria levar. Como ele tinha um tempo livre, achou que seria legal ajudá-la e "baixou nela" (ou fez um download para os mais moderninhos).

Juro para vocês: até hoje acho que aquele dia foi um sonho ou ilusão. Eu peguei praticamente 90% das bolas que mandaram para a trave. Eu não tive medo de nenhuma e por mais que a palma das minhas mãos estivesse vermelha e latejando, eu impedia os ataques. Na verdade, eu ansiava que aquelas meninas gigantes furassem nossa barreira só para eu ter o prazer de defender.

Não lembro se nós ganhamos ou não o jogo. Só sei que todo mundo ficou impressionado comigo e logo já estavam me elegendo como goleira. O problema é que esse tipo de coisa só acontece uma vez na vida. Então, depois daquele jogo, nunca mais fui tão boa. Voltei a ser um zero à esquerda e deixava passar até bola fraquinha. Mesmo assim, aquele episódio ficou tão marcado, que por um bom tempo os times me chamavam para ser goleira, mesmo sabendo que eu voltara a ser um desastre.

Apesar do Santo dos Goleiros só ter notado minha presença naquele dia e depois ter me esquecido, existe outro Santo que me escolheu para me apadrinhar nas horas de desespero. Eu o chamo de Santo dos Atores. Não sou atriz nem nada e só fiz um semestre de teatro, mas o que eu sei e aprendi já dá para quebrar um galho.

Descobri o “baixar o santo” quando fiz uma apresentação de teatro na escola que fez os meus colegas de classe ficarem de boca aberta quando perceberam que a menina quietinha e antissocial sabia ser extrovertida quando necessário. Ou quando eu precisei dançar na frente de todos eles por conta própria, sozinha e sem música com uma coreografia montada de última hora em minha cabeça. E esses são só alguns dos exemplos.

O negócio é que atuar para mim às vezes é mais do que ler um roteiro. É sentir tudo que o personagem sente. E eu já tenho esse costume quando preciso escrever histórias. Por exemplo, esses dias precisei gravar uns vídeos na faculdade onde eu precisava cair na escada. Cair de mentirinha? Não mesmo. Eu me joguei e bati minha perna que ficou roxa e dolorida por três dias. Mas valeu a pena. E a vez que precisei chorar? Como o Vick Vaporub embaixo dos olhos não funcionou, coloquei dentro do meu olho mesmo o que me fez chorar que é uma beleza! E nem me passou pela cabeça as consequências daquilo, porque eu precisava chorar e era a única coisa que importava naquela hora.

Nas aulas de teatro que fiz semestre passado, aconteceu o contrário. Não sei por que, mas eu não me sentia bem o suficiente para me soltar lá. Todas as minhas apresentações foram meia-boca, acho que por isso abandonei. Em contrapartida, a faculdade de Publicidade e Propaganda está tendo um efeito positivo e cada vez sinto-me mais inspirada e “solta”.

Nessa semana, tivemos que fazer um rap inspirado em uma notícia para uma aula. A professora em questão é uma das mais rigorosas e cricri que já vi em minha vida. No último trabalho que tive que apresentar, ela criticou o meu jeito de ler (que é rápido demais) e a forma que meu grupo construiu o texto. Fiquei tão pê da vida que jurei que esse rap tinha que sair o melhor possível para ela não achar NADA para criticar.

Escrever para mim é algo que flui bem, porém nunca me aventurei a escrever um rap. Até poesia dá para engolir, mas rap? Então, o Santo dos Atores vendo meu desespero, chamou o Santo dos Rappers e pediu para ele me dar uma mãozinho. Então o rap saiu e achei bem melhor do que o esperado. Agora só faltava inventar o ritmo, porque tinha que ser apresentado na frente da turma toda.

Antes de eu apresentar, estava com os nervos à flor da pele. Tomei até meu remédio do coração que nunca tomo, só para ver se eu me acalmava e fiz até um exercício de respiração para relaxar*. Então, quando chegou minha hora, fechei os olhos, respirei fundo e... foi. O Santo dos Rappers baixou de novo e consegui cantar! Até fiz aqueles movimentos de mãos que os rappers fazem, porque naquele momento eu realmente precisava ser um para me dar confiança.

Quando terminou, a professora aprovara! Ela gostou tanto da minha atuação que me deu até um ponto extra! Era simplesmente inacreditável. Eu adoro esses momentos quando eu esqueço quem eu sou, quem são as pessoas que estão diante de mim e só lembro de quem eu devo ser e o que devo fazer. Quando finalmente volto ao meu estado natural é como acordar de um sonho.

O que eu falei dos santos é brincadeira. No fundo, no fundo, o que aconteceu comigo naquele dia de goleira e o que aconteceu nas outras vezes partiu de mim mesma. Apesar da insegurança, uma confiança lá no meu âmago brotou e fui capaz de fazer coisas que nem eu e nem ninguém imaginava. Não importa se foi só uma vez ou várias, às vezes nós podemos fazer a diferença. Mas depende só da gente.


*Vou ensinar o exercício de respiração para vocês! Sempre que estiver nervoso, faça que vai ajudá-lo a se acalmar. É assim: Respire por 5 segundos, prenda a respiração por 5 segundos e solte. Faça isso várias vezes. Não sei para vocês, mas comigo funciona muito. É que quando tem que ficar contando quanto tempo tem que respirar ou prender a respiração, sua atenção acaba se voltando para isso e você esquece um pouco do nervosismo.

9 Comentários:

  1. Adorei esse post, achei bem engraçado essa sua definição de "download de habilidades vindas de santos" XD Seria bem legal se fosse assim, tipo num aprova pedir ajuda do Santo das respostas certas, ou numa apresentação de trabalho receber ajuda do Santo da coragem para falar em publico XD

    No meu caso, eu também tenho uma habilidade, ou dom, sei lá, de sentir as coisas, tipo uma super intuição(que alias quase sempre está assustadoramente certa),também acho que tenho outra eu dentro de mim (?) que eu chamo de Illana malvada, sempre que me estresso ou fico nervosa com alguém ou alguma situação eu deixo de ser a Illana boazinha, quietinha e calma e me transformo num Illana fria, cruel, agressiva e as vezes, até violenta >0< é como se alguém ligasse o interruptor e pof, ela aparece XD Tenho que me controlar muito pra não deixar ela aparecer com frequência.

    Beijos, adoro o jeito que você escreve,é engraçado!

    H.I.

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  2. Adorei esse post haha.
    Ah, sou uma negação em basicamente tudo que precise se movimentar demais, como Educação Física. Só "baixei o santo" uma vez quando joguei na defesa e fui muito bem, mas pra mim foi pura sorte mesmo. E bom, fiz teatro quando era criança e eu não era nada mal, depois que cresci eu nem me atrevo a tentar de novo. Sou atrapalhada demais pra esse tipo de coisa.
    Ah, e vou tentar esse exercício um dia.

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  3. Eu também fui muito boa goleira em um único jogo no 1º ano do ensino médio.Depois era uma negação.rsrs.Acho que todo mundo tem um momento na vida que deixa a gente lá em cima e que faz a gente ficar lembrando pra sempre.Acho que de alguma forma a gente precisa disso.

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  4. Amei esse post, foi muito engraçado, e muito inspirador também, obrigada Dani!!

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  5. Adorei o post! Nossa, ficou super divertido. Eu bem queria ter seus insights dos Santos Certos e ficar super determinada, adorei o seu dom, super útil!! Eu não tenho um dom, na verdade, e não acho que vá descobrir tão fácil, não sou ousada igual a você. Mas enfimmm.
    Adorei o post e ri MUITO dos GIFS. *-* Beijos,


    Chel Lima - http://corujando.org

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  6. Confiança é algo incrível na minha opinião, vem do nada e nos Dá uma força né? Não dá pra tender porque que 90% do tempo somos inseguros sendo que temos uma capacidade incrível para tudo!
    Beijos! =**

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  7. Adorei o post e os outros também, são todos gostosos de ler e engraçados, mesmo que de uma forma irônica.
    E AE, outra otaku blogueira e resenhista, fico feliz \o/
    Estava vendo sua tag de ilustrações, e vi que você tem o mesmo dilema que o meu no sentido de ser meio indecisa quanto ao seu "traço". Também sou, desenho mangá, realista, e uns outros aí que tenho desenvolvido, e como você, não gosto de desenhar de uma forma só. Ano passado comprei também um Wacom e não desenho tanto nele como gostaria por falta de tempo, mas o primeiro "oficial" que fiz nele, colorido e tudo, acho até que ficou razoável, fiquei animada pra melhorar \o/ Mas até hoje não peguei nele de novo, abafa o caso ;_; Mas vou usá-lo futuramente pra pintar alguns desenhos bonitinhos que fiz no sketchbook e no caderno da faculdade *-*
    Gostei do blog mesmo, curti no Facebook e segui no Google, bisous!

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  8. Meu psicólogo já me ensinou esse exercício, mas é pra quando eu quiser comer a minha irmã ou coisa parecida.
    Adorei o post. Não sei se tenho um talento desse tipo. Quer dizer, dizem que eu escrevo bem, e dizem que eu sou bonito, mas eu não tenho lá muita auto-confiança. Posso até fazer um post sobre isso um dia.
    Também sou uma merda em educação física, só sirvo pra bater em todo mundo e fazer falta. Hoje em dia falsifiquei um atestado médico e agora posso matar as aulas.
    Santo dos Rappers? haha conheço uma garota que ia morrer de rir com isso.

    obs: Respondendo a sua pergunta, meu personagem foi Dom Casmurro.

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  9. O Santo dos Goleiros também já fez download em mim uma vez também e defendo boa parte das bolas. Mas depois daquele dia, voltei a ser um desastre e desisti de Educação Física. Adorei o post! =]

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