Young at Heart

Quando me fazem a pergunta sobre qual a parte da minha infância que eu mais gosto, meu cérebro começa a voltar no tempo como uma fita sendo rebobinada e simplesmente para em uma cidadezinha do interior com oito mil habitantes. Ela não tem McDonalds, nem shopping e as pessoas preferem Tubaína a Coca-cola. Sempre que vou lá, poderia bater o pé, fazer um escândalo e virar aquela adolescente chata que se acha moderninha e urbana, mas isso raramente acontece (só quando prefiro ficar em São Paulo estudando porque sei que não vou estudar absolutamente nada lá. E em São Paulo também, mas juro que aqui tento fazer um esforço).

Posso ter nascido na maior cidade do país, em meio a prédios cinzentos e dias chuvosos, mas parte de mim ainda pertence aquele lugar verde cheio de pássaros cantando e libélulas voando sobre a piscina. É como se todo peso acumulado pelo estresse da cidade grande sumisse ao chegar a um lugar que o ar é um pouco mais puro.

Foi lá, em uma terra com alqueires limitados que construí um mundo de fantasia, vivi altas aventuras e ainda realizei sonhos. Por exemplo, com seis anos ganhei um pônei. Eu era apaixonada por cavalos e só de pensar em ter uma versão adequada ao meu tamanho, simplesmente me senti a criança mais feliz do mundo. Ainda por cima ele tinha uma mancha branca na testa castanha que minha mãe falava que era uma estrela. Eu tinha um pônei mágico!

Andar nele era minha maior diversão, mas eu também gostava de sentar ao seu lado e dar bolachas de chocolate em forma de coração para ele comer. Mesmo sabendo que era proibido. Acho que se ele viveu todos esses anos foi por causa das bolachas.

Outra invenção minha era a de que o Coelhinho da Páscoa morava na minha chácara. Eu até sabia onde. Do lado de uma jaqueira havia uma pedra grande que provavelmente escondia sua toca. Para minha infelicidade, ao levantar a pedra, descobri que não havia buraco nenhum. Ele era mais esperto do que eu pensava!
E a vez que o Papai Noel comeu o panetone que deixei para ele? Não só isso, como deixei um casaco para ele se aquecer porque estava chovendo e quando cheguei para dar uma olhada, ele estava molhado! E o panetone havia sumido! E havia meias cheias de doces na churrasqueira (aqui no Brasil temos que ser criativos, não é mesmo? Chaminés para quê te quero?).

E eu acreditava piamente nisso. Principalmente quando tinha onze anos e achava que iria receber minha carta de Hogwarts. Com certeza eu era uma bruxinha, não tinha dúvidas quanto a isso. Obviamente Hogwarts esqueceu-se de mim. Ou melhor, descobri recentemente que a escola de bruxaria só aceita pessoas da Grã-Bretanha. Droga! Esse é o motivo mais plausível para eu não ter sido escolhida.

Tudo bem, com bruxaria ou não, eu consegui usar minha imaginação para transformar um pouco meu mundo em mágico. A enorme paineira do sítio da minha avó transformou-se em Salgueiro Lutador. Mas ele era bem simpático e deixava meus primos e eu colocar um balancinho em seus galhos. Era a coisa mais cheia de adrenalina que andei. Era uma delícia quando conseguíamos balançar bem alto. E o perigo estava na possibilidade da corda arrebentar e quebrarmos nossos pescoços. Mas isso nunca aconteceu.

E a goiabeira? Ela era nossa nave espacial antes de nós acharmos a charrete de meu avô. Nós subíamos até os galhos mais altos e ficávamos balançando. Tinha até uma bifurcação que lembrava o controle de uma nave. Depois nos mudamos para a charrete e cada um de nós foi batizado com o nome de algum personagem de Star Wars.

Se não éramos alienígenas e mochileiros das galáxias, nós éramos exploradores. Íamos até a floresta mais próxima e a desbravávamos! Atravessamos rios até chegar ao outro lado e descobrimos que o mundo era muito maior do que imaginávamos. Todo dia era uma brincadeira diferente. Quando nos cansávamos do lado mais naturalista da vida, íamos até a cidade saciar nossos coraçõezinhos capitalistas (ou comunistas?) com potes de sorvetes que dividíamos entre oito primos. E apesar de termos crescido, continuamos fazendo isso sempre.

E se não havia sorvete, havia uma imensidão de frutas. A temporada das amoras era a melhor. De branquinhos, voltávamos sujos de vermelho sangue, com lábios avermelhados e ainda com muita vontade de comer aquelas frutinhas pretas. Para nossas mães, essa temporada era um horror, afinal amora mancha. Elas preferiam a temporada da jabuticaba ou da pitanga.

Quando finalmente a noite chegava, a alegria não acessava. Se não eram os contos de terror que nos impedia de sair por aí, nós atravessávamos a escuridão para nos esconder enquanto alguém nos procurava. Esconde-esconde de noite era muito melhor do que de dia. Porém, se já fosse tarde e precisávamos dormir, ainda ficávamos madrugada adentro conversando e rindo. Novamente para o desespero de nossos pais que queriam dormir.

O dia nascia e tudo recomeçava de novo. Até as férias acabarem e todos termos que ir embora, cada um para seu canto, para sua cidade, deixando todos com aquela tristeza e gostinho de quero mais. Porém, todas férias ou feriado, lá estamos lá de novo. Não importa se temos 18 anos ou 10. Tudo é como sempre foi. Somos crianças eternas.

Se sou criança até agora é por causa disso. Porque ainda levo no coração cada momento incrível que passei na melhor época da vida. Crescer? Juro para vocês que nunca tive vontade. Se Peter Pan aparecesse e me quisesse levar para a Terra do Nunca, eu iria. Porém, resigno-me a ficar nesse mundo, porém, minha criança interior nunca morrerá. Nunca deixe a sua morrer também.


Esse texto faz parte da blogagem coletiva promovida no Depois dos Quinze

6 Comentários:

  1. Que post mais fofo esse i.i
    É você mesma na primeira foto? *-* Que lindo! Adoro pôneis, são tão simpáticos <333
    Então eles só aceitam pessoas da Grã-Bretanha... isso explica muita coisa ._.

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  2. Confesso que sou das adolescentes pseudo-urbanas que torce o nariz toda vez que vai para o interior hihi Mas que postagem linda! Adorei o tema da blogagem coletiva, tenho lido textos muito bons graças a ela.

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  3. Ameio texto. eu tambem me sinto assim, eterna criança :p e me lembra quando eu e minhas amigas iamos pro quintal de uma delas e faziamos mil coisa, tipo escorregar na terra kkkk aiai saudade.

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  4. Caramba, sua infância foi incrível. Eu usava minha imaginação também, mas eu era menina de prédio, não tinha muito o que fazer. Como eu queria ter tido uma chácara também e um pônei, sua infância foi magica.É por isso que você é assim hoje, mágica.

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  5. Olá Dasty!
    Seu texto ficou maravilhoso! Eu também não quero deixar minha criança interior morrer. Tive uma infância inesquecível, repleta de imaginações e alegrias. Já sonhei em encontrar um príncipe encantado exatamente igual aos dos contos de fada. Criava famílias com as minhas bonecas e brincava com a minha mãe. Essa, sem sombra de dúvida, foi a melhor época da minha vida.
    Bom final de semana!
    Beijoquinhas ;*

    (http://versosmudos.com)

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  6. É, eu concordo plenamente com ser criança eternamente. Do livro Nada Por Acaso, do Richardt Bach, "é quando nos tornamos adultos que perdemos o melhor da vida, deixamos de viver e passamos a sobreviver". (Não é exatamente isso, mas é algo assim. Huahuahua )

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