Não profanes



Virginia Noriega era uma jovem mulher praticamente normal. Daquelas que não chamam muita atenção ou que detém as características comuns que damos as pessoas: alta ou baixa, magra ou gorda, quieta ou falante. Ela trabalhava na parte de documentos antigos de uma cidade qualquer, com um nome qualquer e com uma população qualquer.

Ela gostava do cheiro de papel velho, da companhia das traças e da poeira que a empregada esquecia-se de tirar das prateleiras. Porém, o que mais amava era a parte de arquivos mortos. Arquivos que ninguém tocava mais. Arquivos que não faziam a mínima diferença. No seu horário livre, gostava de ficar dando uma olhada neles e vendo se encontrava algo interessante. Às vezes acabava surrupiando algo. Pegava o que quer que fosse, colocava em um daqueles plásticos protetores e levava para casa.

Sua casa era nada menos que um sobrado meio velho meio esquecido, mais um daqueles que ninguém se importa em dar uma olhadela. Por dentro era tão parecido com o prédio de documentos antigos da cidade quanto uma xícara para uma caneca. Virginia largava sua bolsa em alguma mesa bamba e corria escada acima para o quarto de hóspedes que, nunca, em hipótese nenhuma, seria ocupado por alguém. Ou melhor, a não ser uma pessoa.

A parede do quarto de hóspedes era totalmente ocupado por imagens, desenhos, notícias de jornais e outros papéis colados na madeira podre, que era quase impossível de se ver. Então, como em um processo religioso, ela retirava o papel que recolhera e colava na parede cuidadosamente.

Virginia Noriega não era uma pessoa praticamente normal. Ela tinha uma obsessão. Quase doentia. Não por papéis antigos ou por poeira. Mas por uma pessoa em questão. Para a população daquela cidade esquecida, ela era mais uma jovem que veio se aventurar em um fim de mundo. Porém, uma pessoa com o mínimo de sanidade possível não iria para um lugar daqueles sem ter um objetivo pré-definido.

Ela olhou para a pá do lado da cama abandonada no quarto de hóspedes. Esperou que toda luz sumisse com o sol se escondendo das montanhas e saiu de casa, juntamente com a pá e seu carro velho azul desbotado. Parou na frente do cemitério local, com as mãos tremendo de excitação. Pulou o muro e encontrou-se em um dos lugares com a atmosfera mais mórbida que já sentira. E olhe que ela já vivia em sua própria morbidez.

Com uma lanterna, tratou de localizar o que procurava. Quando viu a pedra com o nome gravado, sabia que estava no lugar certo. Ficou um tempo contemplando o lugar e admirando as inscrições: Desta terra vim, desta terra pertenço. Pensou brincalhona: “Não, mais”. Tratou de cavar. Não sentia o cansaço. Não sentia o suor escorrendo pela testa. Apenas sentia a euforia. Encontrou o caixão. Abriu-o. Viu-se cara a cara com um esqueleto que já devia estar há muito tempo ali. Era a única coisa que faltava em sua coleção. A única coisa que faltava para tornar seu tesouro completo.

Cuidadosamente foi pegando osso por osso e guardando em um saco acolchoado. Não queria que nada fosse perdido ou se desfizesse. Tratou de fechar o caixão e colocar a terra em seu devido lugar. Não queria chamar atenção de ninguém. Não queria que ninguém soubesse.

Voltou para casa, levando o saco consigo. Despejou o esqueleto na cama, olhando cada detalhe dele. Pensava em poli-lo. Em juntá-lo. Deixá-lo perfeito. Uma escultura. Uma obra de arte. Porém, estava cansada no momento. Precisava descansar. Como não dormir calmamente depois da missão bem sucedida? Deitou-se do lado do esqueleto. Olhando nos fundos olhos negros que tragavam sua alma. Adormeceu.

Não houve sol. Não houve pequeninos raios luminosos adentrando o quarto de hóspedes como de costume. Quando Virginia Noriega abriu os olhos só havia completa escuridão. E o cheiro de terra úmida. Tentou-se mover, mas havia pouco espaço. Sentiu algo do seu lado e com as mãos conseguiu sentir os mesmos ossos que havia roubado de madrugada. Tentou se mover, mas havia algo acima de si. Estava trancada em algum lugar.

Tentou gritar, mas sua garganta estava seca. O ar era pesado. Bateu na parede de madeira o máximo que podia. Foi quando percebeu que não estava mais em seu sobrado velho. Não estava mais na cama mofada do quarto de hóspedes. Estava em um caixão. Abaixo da terra. E a única coisa que escoava em sua cabeça era: Desta terra vim, desta terra pertenço.

Obs: Esse conto faz parte do 30 Days Writing Challenge e corresponde ao dia 6 - Escreva algo de terror. A ideia surgiu quando estava lendo um livro do Edgar Allan Poe no ônibus.

10 Comentários:

  1. noooossa adorei!! *-*
    cê tava lendo o conto do enterrado vivo?

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  2. Adorei esse texto. Infelizmente ainda não li nada do Poe, acho isso muito triste. ):

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  3. Ficou ótimo.
    E de terror mesmo.
    O texto foi bem escrito e deixou aquela sensação angustiante no final.

    Beijos
    Pâmela Rodrigues
    Blog: Liste & Realize
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  4. Nossa, que legaaal!!
    Julyana Ribeiro (seraquecresci.blogspot.com)

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  5. wow, me deu calafrios! hahauuhahua xD Allan Poe é o que há

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  6. Eu já li alguns contos parecidos, inclusive de um livro que você já resenhou aqui, Setes Ossos e uma Maldição, entre outros. Adoro textos de terror que me deixam com medo, assustada ou até mesmo angustiada, como aconteceu com sua história. Adorei!

    inconstanteando.blogspot.com

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  7. Fiquei arrepiada kkk. Lembrei dos contos de Setes Ossos e uma Maldição, não sei porque.

    Te indiquei em um meme *-*
    http://lunanacht.blogspot.com.br/2013/02/memes.html

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  8. Nossa, esse foi um dos melhores textos seus que já li!!
    Surpreendente! Parabéns e continue se dedicando :)

    http://4demarco.blogspot.com.br

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