O Sótão

Waiting for Daniel

Estava escuro. Completamente. Pegou seu celular e tentou iluminar o local com a fraca luz. Era o suficiente para encontrar a escada estreita e toda branca que se escondia naquele canto esquecido e desconhecido para muitos. Subiu cuidadosamente, não queria chamar atenção e não queria que os degraus rangessem demais conforme subia os dois lances de escadas.

Encontrou-se no segundo andar, virou-se para a esquerda onde achou um umbral sem porta, carcomido pelo tempo. Esquecido, pelo mesmo motivo. Atravessou-o e do lado direito encontrou vigas de madeiras. Nada além disso levá-la-iam ao seu destino. Um passo em falso e cairia delas estatelada no chão. Talvez não morresse, mas poderia ganhar algumas costelas quebradas.

Agachou-se e de joelhos, segurando fortemente nas vigas, foi se movimentando até o outro lado com cuidado. Às vezes algumas farpas entravam em suas mãos, mas ela não se importava muito. A adrenalina era mais forte e prazerosa que o medo. Sabia que tudo naquele lugar estava velho e apodrecido, mesmo assim, aventurava-se. Conseguiu chegar sã e salva ao outro lado.

Tirou uma chave grande e enferrujada do bolso e abriu a porta. Estava no sótão. Não sabia o que a atraíra primeiramente para aquele lugar, talvez fosse a quietude, a beleza ou porque fosse antigo. Sempre que seu dia era muito turbulento, decidia que ali era um ótimo lugar para esfriar a cabeça. Era onde lia seus livros, onde escrevia, onde ouvia música e onde sempre o encontrava. Mas ele parecia não estar ali hoje, mesmo assim, havia sempre algo que denunciava sua presença.

O sótão era um cômodo com um teto triangular, todo feito de madeira e contendo algumas caixas e quinquilharias. Ela nunca se permitiu dar uma olhada no que havia ali. Era como violar um esquife. A única coisa que fazia era usar por um tempinho aquele lugar. O que gostava mais era a enorme janela que havia bem no centro da parede triangular. A vista era linda e dava para ver um pouco da cidade e as árvores de uma praça perto dali. Gostava de ficar ali também em dias de chuvas, mesmo tendo que aguentar algumas goteiras insistentes.

Quando deu mais um passo, notou que havia algo a mais ali. Tinha alguns objetos brilhando no teto. Aproximou-se e percebeu que eram dezenas de borboletas feitas de um papel furtacor, que brilhavam enquanto o sol entrava pela grande janela. Elas estavam presas no teto por fios de náilon. Eram tantas e enchiam seus olhos com suas cores que variavam entre roxo, rosa e azul. Não conseguiu conter o enorme sorriso que surgiu em seu rosto, ainda mais em um dia que pouco sentiu vontade de mostrar os dentes.

Ele sabia. Ele sabia. Ele sabia. Ele sempre sabe. Quando ela passava por um dia difícil ou se sentia triste, lá estava uma surpresa. Como poderia gostar tanto de uma pessoa que não sabia quem era, nunca vira o rosto e só conhecia o nome? Sempre fora ensinada a não falar com estranhos. Sabia que devia desconfiar das pessoas. Ela bem sabia disso. Mas não conseguia se conter quando recebia os bilhetes, as cartas ou pequenas mensagens criativas espalhadas por aí, como as borboletas. Amava-o sem saber quem era, mesmo que se recriminasse por isso.
Aproximou-se da janela e notou que havia algo escrito em caneta vermelha na janela. Ele sempre deixava mensagens nos vidros. “Pense em mim”. Ela não precisava nem ler aquilo para fazê-lo. Sorriu mais ainda. Desde que aparecera em sua vida, às coisas tinham melhorado. Não estava mais sendo tão difícil.

Ouviu um barulho às suas costas. Virou-se de repente e encarou-o. Se é que podia ser encarado, afinal usava uma máscara. Também se vestia completamente de negro. Exceto a máscara e as luvas. Eram branquíssimas. Era uma visão assustadora. Qualquer pessoa sensata correria. Mas ela não correu. Nunca sentira medo dele. Já haviam se encontrado antes e o sujeito nunca fizera nenhum mal a ela.

Ele estendeu sua mão vestida de tamanha alvura. Qualquer pessoa hesitaria. Ela não. Segurou sua mão. Sabia perfeitamente que estava segura.

Obs: Esse conto foi feito para o 30 Days Writing Challenge e corresponde ao dia 7: Um lugar que só exista na sua cabeça. O texto foi inspirado em um sonho que tive e que me chocou muito. Ele não termina aí, na verdade, tem muito mais e eu chego a descobrir a identidade da pessoa. Mas não sei se conto mais do que isso haha

14 Comentários:

  1. Belíssimo conto :D
    Pareceu o v de Vingança numa versão gentil haha

    ResponderExcluir
  2. Parabéns você escreve muito bem.
    Esse sonho deve ter sido bem emocionante.

    Já estou começando a escrever algumas coisas do projeto que você criou.

    ResponderExcluir
  3. Lindo e verdade, você escreve muito bem.
    No final quando você disse que havia sido inspirado em um sonho, lembrei de um que tive... E, ei, sou meia curiosa com sonhos das pessoas KKK

    ResponderExcluir
  4. adorei o conto! e mais ainda o fato de você ter se baseado num sonho pra escrever.
    nunca tive um sonho assim, meus sonhos são mais sangrentos rs

    ResponderExcluir
  5. pensei no Tuxedo mask de sailor moon por causa da descrição dele... Gostei do conto, consegui imaginar com perfeição o local e todo o sentimento. Me sinto curiosa para saber mais do seu sonho e bem que podia ter continuação *_* mas é você quem sabe.
    beijoos ^^

    ResponderExcluir
  6. Fiquei com gostinho de quero mais. Parabéns, você escreve muito bem.
    Estou esperando ansiosamente para ler um livro seu! :D

    ResponderExcluir
  7. Adorei o texto, conta o final vai... rs :)

    http://4demarco.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  8. Adorei o conto e esse projeto é incrível para quem gosta de escrever. E fiquei curiosa para saber quem é hahah

    ResponderExcluir
  9. me lembrou o Fantasma da opera. você PRECISA continuar o conto, não é justo só você saber quem é ele. não seja malvada e mostre o resto para gente.

    ( ah esse seu desafio é muito perfeito, quero começa-lo logo )

    ResponderExcluir
  10. Pode contar agora ¬¬ fiquei muito curiosa, conte ¬¬ kkkkkkkk

    ResponderExcluir
  11. Primeiramente adorei a foto. Ficou conectada ao conto e ilustrou perfeitamente bem.

    Me lembrou o Fantasma da Ópera, dois votos na Olive. Só espero que ele não seja tão doentiamente louco e insano ( ♡ ai ai meu Erik ) quanto ele. Você escreve muito bem, e assim como as demais estou curiosa pelo final.

    ResponderExcluir
  12. Tenho muitas poucas ideias vindas de sonho, invejinha! Adorei o conto, boa sorte no resto do desafio!

    ResponderExcluir
  13. Ual, que legal o seu lugar! Eu tinha começado seu desafio, mas esqueci, acho que vou tentar de novo x.x
    Adorei a parte das borboletas, imaginei tudo tão mágico <3

    ResponderExcluir
  14. Ual! Que lindo, você escreve tão bem, fica tão explicito! Adorei. Queria ter tido esse sonho, seria bem emocionante. Irei participar do seu projeto ><.

    http://amadurecendonavida.blogspot.com

    ResponderExcluir