Viva la Revolución!

Era um dia comum como qualquer outro. Penúltimo dia de aula, prova a fazer, trabalhos a entregar. Eu estava no metrô quando uma menina loira e baixinha se aproximou perguntou:

- Você vai para a manifestação?

Não sei ao certo o motivo dela por ter perguntado isso a mim. Mas eu não ia, porque tinha prova, mesmo sentindo a chama da revolução queimando no meu peito enquanto eu via as diversas notícias pela internet. Confesso a vocês, sempre tive o sonho de ver o Brasil se levantando contra esse governo ruim.

- Não – respondi – e você?

- Vou! Toma cuidado quando passar pelo Teatro Municipal. Nós vamos nos reunir lá, mas os policiais estão pegando qualquer pessoa que está passando.

Achei legal da parte dela mesmo indo na manifestação, me avisar do que estava acontecendo. Então, eu disse boa sorte e que estava torcendo por eles, porque apoiava a causa.

Cheguei à faculdade sem maiores problemas, apenas lembrando-me da garota e me perguntando se ela estaria bem e se chegaria em casa hoje. Fiz a prova. Não tinha a segunda aula, apenas a última, no qual precisava entregar um trabalho. O meu prédio fica fora do campus universitário, na Rua Piauí, justamente em uma das ruas que dá para a Consolação. Eu precisava atravessar apenas a rua para chegar até o campus. Desci até o térreo, meus amigos e eu percebemos que havia certa movimentação por ali.

Foi quando ouvimos gritos e explosões. Os alunos começaram a entrar desesperadamente dentro do prédio tossindo e chorando. Os seguranças mandaram todos entrar e fecharam as portas para impedir o que estivesse lá fora entrasse. Não era quem, era o que: gás lacrimogêneo. Logo um cheiro horrível adentrou o prédio que começou a irritar o meu nariz. Felizmente não atingiu meus olhos.


A rua do nosso prédio não tinha manifestantes. Tinha apenas alunos da faculdade e os polícias jogaram várias de graça por lá. Para vocês terem uma ideia, uma velhinha estava passando pela rua quando isso aconteceu e duas alunas da faculdade levaram-na para o Campus, para ela ficar protegida. Encontrei-a desesperada enquanto as meninas tentavam acalmá-la. Quando as coisas aquietaram um pouco, corremos para o Campus, onde era mais seguro. Lá ouvimos várias bombas e também o helicóptero sobrevoando o local. Uma amiga e um amigo meu que foram ver o que estavam acontecendo e os policiais jogaram gás lacrimogêneo neles. Outra estudante teve o braço ferido por estilhaços das bombas. Os policiais tiveram a ignorância de jogar bombas na frente do nosso prédio sem motivo nenhum. Foram várias bombas. Nenhum aluno fez nada, estávamos apenas na rua, porque precisamos fazer a transição de um prédio para o campus, já que tínhamos aula lá também.

Foi simplesmente surreal. Foi uma loucura. Provas foram canceladas. Nós não podíamos sair do campus porque corríamos o risco de sermos machucados. O cheiro do gás lacrimogêneo estava espalhado pelos prédios mais próximos da Consolação. Um completo caos. Parecia que estávamos no meio de uma guerra.
Quando as coisas acalmaram, e depois de entregar os trabalhos nós decidimos arriscar ir para o metrô.

Parecia que as coisas já estavam calmas e não ouvíamos mais bombas. O caminho que iríamos percorrer aparentemente não teria problemas, mesmo passando pela Rua Maria Antônia onde a polícia havia cercado os manifestantes. Ao passarmos por ela, havia lixo para todo o lado. A cesta de lixo estava depredada e havia vidro na rua em alguns lugares.

Passaram umas dez viaturas pela gente. Estávamos morrendo de medo de eles pararem e jogarem gás de lacrimogêneo ou atirar em nós com balas de borracha, mas, ainda bem, isso não aconteceu. A polícia que devia nos proteger e nos dar segurança, agora nos dá tanto medo quanto um ladrão. Conseguimos chegar sãos e salvos no metrô, que estava funcionando normalmente.

Quando cheguei em casa, vi na internet o que havia acontecido. Quanta crueldade ao redor da faculdade (que pega um quarteirão), não só com pessoas que não tinham nada a ver com situação quanto com manifestantes que não fizeram nada também. Não justifica tanto uso de poder. Não justifica uma manifestação ser tachada de terrorismo. É essa a hora do Brasil se levantar e lutar com essa ditadura que não acabou.


7 Comentários:

  1. É isso que a gente ganha por tentar exigir nossos direitos, PM tenta calar a voz do povo com bomba de gás. E cala quem nem tá gritando. É vergonhoso.
    Infelizmente, não fui nessa manifestação porque tinha um compromisso marcado pras 17h30. Estudo na 24 de maio e acabei sendo liberada uma hora mais cedo (às 16h) porque a direção teve medo de acontecer alguma coisa do tipo que você contou.
    Quando cheguei em casa eu vi as notícias, fiquei pasma com a violência da polícia. Desnecessária. Aquele vídeo que postaram no facebook, onde mostrava claramente alguns poucos manifestantes de frente com a PM, gritando "chega de violência" (ou alguma coisa do tipo). Sem fazer nada, sem machucar ninguém, só gritando. E o que eles fizeram? Tacaram bomba.
    Queria muito ter ficado, acho que o povo finalmente tá acordando e percebendo o poder que tem.

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  2. Nosso governo "democratico" mostrando seu lado facista sem medo nenhum! Fica ainda mais fácil quando a Globo e cia sai por ai dizendo que a manifestação não tem motivos razoáveis para acontecer... Manifestantes não são terroristas, terrorista é esse governo que não tem vergonha de estuprar o povo dessa maneira u__u
    É inacreditável....

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  3. Pasma com a ação da policias. Eles não estão ligando se a pessoa esta ou não participando, simplesmente vão lá e jogam as bombas.
    Não moro perto dos acontecimento (e acho que não deixaria eu ir), mesmo assim estou acompanhando pela internet.
    Pelo visto o povo anda acordando e fazendo o que deve ser feito.

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  4. Finalmente o gigante acordou! A atitude da PM só mostra como eles são mal preparados para essas situações, pois aqui é o Brasil o país que "aceita tudo", então tratar uma multidão de ativistas é como se preparar para uma guerra contra vândalos. E deplorável ver a rede Globo querendo dar a entender que tudo isso é por causa de 0,20 centavos. E acho que mais manifestações DEVEM sim acontecer, isso é pelas escolas públicas horríveis que temos, a saúde vergonhosa, enquanto milhões foram gastos para uma Copa. V E R G O N H O S O!
    E como Geraldo Vandré disse:
    Caminhando e cantando
    E seguindo a canção
    Somos todos iguais
    Braços dados ou não
    Nas escolas, nas ruas
    Campos, construções
    Caminhando e cantando
    E seguindo a canção

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  5. Obrigada pelo comentário lá no blog :)
    Realmente, precisamos parar de ser ovelhas, indo à luta de todas as maneiras: indo às ruas e/ou divulgando os verdadeiros acontecimentos pro pessoal sair um pouco do que defendem a tv e os governantes.
    Cada relato que encontro é pior que o outro: velhinhos, crianças, estudantes, manifestantes ou não, todo mundo leva bomba. Sempre acreditei que continuávamos numa ditadura mascarada, mas nunca imaginei que isso fosse acontecer, ainda mais na minha juventude.
    Ao mesmo tempo em que me sinto ofendida, amedrontada, desgostosa com toda essa violência por parte da PM a mando do Estado, me sinto orgulhosa e esperançosa, pois cada vez mais gente se junta pra lutar e mostrar que as coisas são mais sérias do que o JN quer que o povo acredite: o terrorismo acontece, mas pelo grupo contrário - a polícia.
    Geraldo Vandré: sempre amei este cara, que ficou meio perdido por tanta crueldade que vivenciou na Ditadura Militar (o que é uma pena), mas que foi e é um dos gênios de seu tempo. Seu jeito de cantar dói no coração, por sentir que é uma súplica, um "por favor" muito dolorido. Sinto um carinho bônus por ele ser da Paraíba como meus pais, mesmo que eu ao mesmo tempo me entristeça por eles não pensarem como a gente, e estarem alheios à real condição e fatos desta luta - que espero que continue, seja física e/ou conscientemente, porque quero de coração que as coisas mudem - para melhor, é claro.

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  6. Ótimo relato Dasty. Acho muito importante as pessoas que presenciaram darem seus depoimentos.
    Concordo com você, precisamos levantar e lutar. Chega de engolir merda desses políticos.

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  7. Se ler/ assistir relatos pela internet já me deixam doida, imagina se tivesse passado por isso! Não dá pra acreditar em como a polícia é truculenta, me deixa revoltada. No lugar de proteger a população, da qual fazem parte, lutam contra e agridem. Precisamos de novos tempos urgentemente!

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