Anita Malfatti – A Festa da Cor

Deparei-me com o livro Anita Malfatti – A Festa da Cor graças a um trabalho que precisava fazer. O básico que eu sabia da Anita era que graças a ela surgiu A Semana de 22 e que ela revolucionou a pintura no Brasil. Também sabia sobre a crítica que Monteiro Lobato fez sobre suas obras, o que acabou completamente com a autoestima dela. Isso é o básico que vemos por aí na escola.

Porém, esse livro descreve a vida dela de uma maneira tão mágica e rica, que eu vi-me totalmente imersa no cenário “São Paulo, anos 20”. Pode ter certeza, a escola ou qualquer lugar não nos ensinam nem um terço do que foi a vida dessa exímia artista que é tão criticada até nos dias de hoje. Anita é tão avançada, mas tão avançada, que basta a gente dar uma olhada nos quadros dela, ainda sentimos algo de estranho, como se fosse difícil aceitar que alguns são arte.

De qualquer forma, para quem não sabe, Anita tinha uma atrofia na mão direita o que a impossibilitaria de pintar. Porém, com a ajuda de professores e uma grande determinação, treinou a mão esquerda tão bem que conseguia desenhar um circulo perfeito com ela. Certa vez, ao ver sua sobrinha chorar de vergonha por ter um problema na fala, Anita disse:

“Você e eu temos muitas coisas em comum, a começar pelo sobrenome. Somos Malfatti, que em italiano significa malfeitos. Querida sobrinha, somos malfeitas, eu com meu braço malfeito e você malfeita em sua fala. Temos em comum esse grande problema, que nos causa tristeza e constrangimentos, mas temos em comum também o dom de superar. Assim como eu superei minhas limitações treinando o braço esquerdo e hoje consigo pintar, sei que você também vai superar seu problema e vai conseguir falar”.

Essa frase acima, ganhou-me totalmente. Outra parte do livro que gostei muito, foi quando Anita, em busca de uma vocação quando tinha 13 anos, submeteu-se a um teste. Ela deitou-se num vão debaixo dos dormentes de uma estrada de ferro e esperou o trem passar. Quando isso aconteceu, ela relatou suas sensações: “O barulho ensurdecedor, a deslocação do ar, a temperatura asfixiante deram-me a impressão de delírio e loucura. Vi cores, cores e mais cores riscando o espaço. Cores que consegui fixar na retina. Assim a cor e a pintura se revelaram o querer em toda minha vida”. Depois desse acontecimento ela pediu à mãe que queria estudar pintura.

Durante um tempo ela foi para a Alemanha e foi pega pelo expressionismo alemão. Foi isso que deu inspiração a ela para pintar quadros com cores fortes e diferentes de tudo que o brasileiro tinha visto até então. O ruim é que ela sofreu muito preconceito das pessoas, que chamavam suas pinturas de deformações, inclusive de sua família. Esse baque foi tão grande que nunca mais ela arriscou tanto em suas pinturas e voltou a fazer o tradicional (apesar de eu achar que sua pintura tem algo de tão singular, diferente de muitos pintores da época).

A minha pintura favorita dela é A Mulher do Pará. A inspiração dela veio quando o navio que levava Anita a Paris teve que parar em Belém por problemas técnicos. Enquanto passeava pelo lugar encontrou uma cena que chamou sua atenção: uma prostituta solitária tomando sol na sacada de uma casa. Esse quadro teve a reprovação principalmente da sua irmã, Georgina, que era muito recatada. Ela pediu que Anita vendesse o quadro porque se tratava de uma “mulher da vida” oferecendo-se em uma sacada. Porém, Anita acabou retrucando baixinho: “Não sabem quanta inveja tenho da liberdade dessa mulher”. Por ter vivido um tempo no exterior, Anita vivenciou uma vida totalmente diferente da que tinha no Brasil. Aqui ela tinha sua liberdade restringida, o que era o contrário da sua alma artística e da liberdade que procurava através das suas pinturas.

Outra coisa que gosto muito dos anos 20 eram os grupinhos artísticos da época. No caso, havia o Grupo dos Cinco, formado por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral (outra pintora magnífica e brasileiríssima), Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia (estes três últimos são escritores). Eles viviam fazendo comemorações, falando sobre o mundo artístico, participando de saraus e outras coisas culturais. Sinto falta disso ultimamente. Adoraria ter um grupo de escritores para conversar sobre os mais diversos livros. Sei que em São Paulo deve ter um bocado deles espalhados por aí, mas até agora não encontrei nenhum (preciso dar uma olhada na Casa das Rosas ou na Biblioteca Mário de Andrade).

De qualquer forma, eu achei essa biografia uma das mais incríveis que já li. Ani Perri Camargo conseguiu juntas informações incríveis sobre a Anita Malfatti e conseguiu contar isso de uma forma tão gostosa de ler que nem parece uma biografia e sim a história de uma personagem. Se algum dia vocês toparem com esse livro, eu acho que vale super a pena dar uma lida. Pena que peguei na minha faculdade, porque adoraria ter um livro desses na minha estante.

7 Comentários:

  1. Eu sei apenas o básico sobre ela, conheço mais a Tarsila. As coisas que você escreveu e as fotos do livro me deram uma incrível vontade de saber muito mais sobre a vida dela. Me conquistou.

    >> blog-espelhodigital.blogspot.com

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  2. Anita Malfatti entre os modernistas sempre figurou como uma de minhas preferidas. Não conheço o livro, mas quero muito conhecer. Adorei o post sobre ela e os dizeres para a menina com problema na fala.
    Era uma mulher repleta de superação.
    Adorei o visual novo, ficou lindo.
    Como andei fora da blogosfera não sei se ainda é novo ou eu que estou atrasada, rs!!!

    Beijos
    Pâmela Rodrigues
    http://listerealize.com

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  3. Esse post veio na semana certa, porque eu estou estudando a semana de arte moderna haha Eu queria tanto ter sarais e escritores por perto de mim também )):

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  4. parece bem legal a história . :D
    to seguindo aqui
    Abraços.
    www.oquefaltou.com
    BR

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  5. Em São Paulo com certeza se você quiser, você acha! Isso é o bom da cidade, o ruim é que pisar nela me ataca a sinosite instantaneamente.
    Tenho que dizer que da prostituta não gostei muito não, mas as paisagens dela eram lindas! Geralmente na escola só se vê aquelas pinturas mais modernas. Também não sabia desse problema da mão dela, mas tenho que dizer, tem uma menina na minha sala que tem as duas mão com "defeitos" (não tem alguns deles e outros são só metade) e ela desenha como todas as outras pessoas da sala! E como fazemos arquitetura isso significa que ela desenha melhor que muita gente! hahaha

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  6. Achei super legal! Nunca vi pra comprar :(
    giuliaassuncao.blogspot.com

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  7. Tudo que sei da Anita é: ela foi uma pintora '-'
    Achei super interessante o post e conhecer mais sobre ela. Vou procurar essa biografia para ler :)
    xx

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