Cartas a T. A.

Imagem original de Ari Bakker
Querido Te Aro,

Venho por meio desta tentar dizer o que não foi dito no momento certo. Talvez, a verdade seja que não havia palavras nem momento. Talvez nunca haja, mas escrever é tão mais simples. Falar exige que as palavras não se percam pela língua. Mesmo assim, confesso, sem jeito, que as palavras também estão me escapando pelos dedos.
Lembra-se da vez que lhe contei a primeira impressão que tive ao te conhecer? O que eu pensei quando te vi pela primeira vez? Disse que tinha achado-o bonito. Mas não foi apenas isso. Lembro como se fosse ontem, mas pensei: "Bonito, mas não faz meu tipo". E durante todo esse tempo, mesmo depois de tudo, eu estava certa. Você nunca fez meu tipo.
Mas também estava completamente errada. Estava errada em tentar classificar as pessoas de acordo com meus gostos e expectativas. Sempre dizia para mim mesmas que não queria um relacionamento de Facebook, que se bastava em um status e algumas fotos bonitinhas. Como fui educada por livros e filmes que apresentavam personagens espetaculares e romances fora do comum, queria alguém que abalasse minhas estruturas e me fizesse ver o mundo de outra forma. E você abalou minhas estruturas, você foi um terremoto em minha vida. Não como o de Kobe que destruiu o estúdio de Satoshi Kon e o impediu de fazer uma versão live-action de Perfect Blue. Mas um terremoto forte o suficiente para me fazer sair da minha zona de conforto, sair da minha casa e temer por mim mesma. Um terremoto que destruiu pré-conceitos, dúvidas e questionamentos. O tipo de terremoto que quando você volta para casa, nunca mais é o mesmo.
E depois de você, eu nunca mais fui a mesma. Eu consigo encontrar dor e poesia em tudo. Você injetou emoções em uma pessoa fria e calculista. Você me fez querer aproveitar cada segundo que eu passava do seu lado. Qualquer mensagem sensorial que você mandava, sua voz, seu cheiro, seu olhar, seu toque, seu gosto eram absorvidos. Porque eu sabia que eu ia perdê-lo.
Querido Te Aro, antes de tudo você me parecia a pessoa que menos hesitaria diante de uma situação. Você parecia ter sempre um contra-ataque. Mas na luta que foi nosso pequeno e curto relacionamento, quem sempre contra-atacou fui eu. Não tive medo nenhum. Não tive medo de me ferir. Não tive medo de errar. Fiz o que precisava ser feito, mesmo no final sendo eu a que mais se machucou. Quando algo acaba, normalmente pergunta-se o que se fez de errado. Perguntei-me isso poucas vezes, porque fiz o máximo que pude.
Mesmo assim, a única coisa que me arrependo é de não ter conseguido atravessar as barreiras que você colocou em volta de si. As barreiras que eu vagamente conseguia vislumbrar quando olhava em seus olhos e via suas dores. Essas dores que você escondia por trás de um sorriso enorme e pela sua força de vontade de sempre continuar. Porque mesmo triste, você era a pessoa mais feliz que já conheci. Eu queria ser a pessoa que saberia de todos segredos e suas frustrações, porque sou uma colecionadora de lágrimas. Mas agradeço por algumas de suas confissões, elas me fizeram entender quem você era.
Querido Te Aro, não sei se realmente tudo acabou para nós. Mas eu agradeço por tudo que aconteceu. Agradeço por ter me permitido conhecê-lo. Vou sentir falta do que fomos em cada pedacinho dessa cidade cinza em que estivemos. Vou sentir falta da forma que você me olhava. Vou sentir falta da pessoa que eu era antes de você. A pessoa que eu nem mais lembro como era, pois ela se perdeu nesse transbordar de emoções que agora tomou seu lugar.
Querido Te Aro, acho que te amei. Foi a única coisa que não consegui dizer.



Obs: Te Aro na língua maori significa "O Enfrentamento". Também é uma cidade da Nova Zelândia. Esse nome não foi escolhido ao acaso.

4 Comentários:

  1. Que bonito texto <3
    não sei... consegui me identificar bastante com ele, q bom q está de volta ^^

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    1. Que bom que você gostou, Paula! Sim, fico feliz de estar de volta :D

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  2. Que texto lindo! Você que escreveu essa maravilha? Amei!!

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